Memória muscular: a aliada dos músculos perdidos

Afinal, o que é Memória muscular?

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DefiniçãoMemória muscular foi usado como sinônimo de aprendizagem motora , que é uma forma de memória de procedimento que envolve a consolidação de uma tarefa motora específica na memória através da repetição. Quando um movimento é repetido ao longo do tempo, uma memória de músculo longo prazo é criado para essa tarefa, eventualmente, permitindo que seja realizada sem esforço consciente. Este processo reduz a necessidade de atenção e cria o máximo de eficiência nos sistemas de motor e de memória. Exemplos de memória muscular são encontrados em muitas atividades cotidianas que se tornam automática e melhorar com a prática, tais como andar de bicicleta, digitando em um teclado, digitando um PIN , tocar um instrumento musical, [1] artes marciais ou mesmo dançar.

Durante muitos anos acreditou-se que, uma vez atrofiado, não seria mais possível recuperar um determinado músculo.

Através da falta de exercício ou lesão, pesquisadores sempre imaginaram que a inatividade muscular fizesse com que os novos núcleos celulares obtidos durante os treinos fossem permanentemente eliminados através da morte celular programada (apoptose). Para eles, a fibra muscular simplesmente morria e, não havia modo de recuperá-la.

Porém, não é o que acontece…

Uma pesquisa, publicada em 2010 por pesquisadores da Universidade de Oslo, causou uma reviravolta no assunto ao afirmar que, em realidade, os novos núcleos celulares obtidos com os treinos permaneciam onde estavam por até 3 meses, ou seja,  ainda que você fique sem pisar na academia por até de 90 dias, ao retornar aos treinos, seus músculos não irão reagir da mesma maneira que a sua primeira vez na musculação.

Como os núcleos extras ainda estão presentes, facilitam o aumento da síntese proteica promovendo a hipertrofia.

Esse fator dá a oferece ao praticante de atividade física uma vantagem sobre aqueles que nunca praticaram, pois os resultados são vistos de forma mais rápida, devido ao domínio que o corpo passa a exercer sobre o exercício já executado há tempos atrás.

Os tipos de memória muscular

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Utilizada em praticamente todos os momentos da vida, a memória muscular atua tanto de forma consciente como inconsciente.

Podemos, por vezes, nos esquecer de como alguma tarefa é realizada, porém, ao recebermos o primeiro estímulo, somos capazes de realizá-la com rapidez, ainda que com um pouco de dificuldade no início.

💡  por exemplo: para dirigir um veículo, uma pessoa precisa aprender e dominar todas as funções do mesmo, as quais necessitam de atenção e concentração por parte do motorista. É nesse momento que o movimento é fixado, e, ao praticá-la constantemente, os atos são automatizados, ou seja, são executados de maneira natural.

1 – Memorização de determinados movimentos

Existem, basicamente, dois tipos de memória muscular. A primeira diz respeito à memorização de determinados movimentos, como, por exemplo, o de dirigir, citado acima.

Embora chamada de muscular, essa memória é, na verdade, regida pelo cerebelo, a parte do cérebro que coordena as atividades do músculo esquelético, do tato, da audição e da visão.

Neste caso, não é o músculo que memoriza um determinado movimento, mas sim um conjunto de neurônios (conhecidos como células de Purkinje) que consegue se “recordar” de um movimento já conhecido para que possa ser repetido no futuro.

2 – Rápida resposta dos músculos

Já o outro tipo de memória muscular diz respeito à rápida resposta dos músculos ao treino de força, ainda que o praticante tenha permanecido um certo tempo afastado dos treinos.

 💡 Um exemplo prático disso: ao  entrarmos numa sala de musculação, e compararmos o processo evolutivo de duas pessoas que estão iniciando um programa de treinamento, onde uma delas está praticando musculação pela primeira vez, enquanto a outra, já praticou e esteve há algum tempo afastada, notamos que, após algumas semanas de treinamento, a segunda pessoa passa a executar os exercícios com maior domínio dos movimentos, conseguindo aumentar as cargas com maior facilidade, o que consequentemente, mostrará resultados mais rápidos comparados ao indivíduo que nunca praticou.

Para entendermos melhor como ocorre o processo da memória muscular, é necessário relembrarmos de como ocorre o processo do crescimento muscular.

Então, vamos lá continue comigo…  😀 

Entendendo a hipertrofia

Como funciona?

O caminho para músculos maiores e mais definidos passa obrigatoriamente pelo núcleo da célula, pois é ele quem controla a síntese de proteínas que se juntarão para formar mais tecido muscular.

Devido ao seu tamanho, as células musculares possuem em seu interior uma série de núcleos, ou seja, estruturas que estão diretamente envolvidas no processo de síntese de proteínas. Caso tivessem apenas um núcleo, como ocorre com a quase totalidade das células do corpo humano, as fibras poderiam produzir apenas uma pequena quantidade de proteínas.

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Logo, temos que, para se desenvolver, uma célula muscular precisa de mais núcleos, uma vez que estão diretamente envolvidos no processo da síntese de proteínas (actina e miosina).

Esses núcleos são formados a partir de células satélites, conhecidas também como células reservas. As mesmas recebem esse nome pelo fato de que ainda não são “especializadas”, isto é, ainda não se transformaram em uma célula muscular, somente se encontram ao redor delas.

Para se juntarem aos núcleos preexistentes, essas células precisam se multiplicar e passar por um processo de diferenciação. Os exercícios de força são de grande ajuda para estimular esse processo, uma vez que ao fazer suas séries de treinamento, a parede das células musculares é danificada.

Esse ”dano” leva a uma liberação automática de uma série de fatores de crescimento, entre eles o IGF-1 (hormônio anabólico), e o FGF, que saem das células musculares e vão promover a diferenciação das células satélites, transformando-as de neutras para fibras musculares. Logo em seguida, as células satélites se juntam à fibra muscular pré-existente e doam seus núcleos.

O resultado de toda essa sequência é que agora a fibra muscular adquiriu a capacidade de crescimento, pois possui as estruturas necessárias para a síntese de proteínas.

Benefícios da Memória Muscular

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Além de facilitar a vida de quem passou um tempo longe da academia, a descoberta de que as fibras musculares mantêm os núcleos adquiridos durante os exercícios pode ter outros benefícios. Ela pode, por exemplo, auxiliar no tratamento de uma série de condições, como a atrofia e a perda de massa muscular associada à idade.

Para os cientistas, a grande vantagem de poder acumular uma série de núcleos nas células é que você aproveita para adquiri-los em maior quantidade enquanto é jovem (a capacidade de ganhar massa muscular também diminui com o passar do tempo), e assim controlar a diminuição natural de massa magra que começa já a partir dos 30 anos.

E saber que você não vai perder tudo o que conquistou depois de aguentar treinos pesados pode deixá-lo com menos culpa ao tirar alguns dias (ou até semanas) de folga dos exercícios com peso.

Os efeitos negativos da memória muscular

Existe uma situação em que a memória muscular juntamente com a memória emocional, não são benéficas…

Isto acontece sobretudo quando as relacionamos com acidentes, traumas e lesões. No caso das lesões, muitas vezes, ao se deparar com uma situação semelhante à que o levou a se machucar, o indivíduo pode se sentir tenso, desconfortável ou até mesmo extremamente nervoso, o que pode levar à desistência da prática.
Existe um processo, desenvolvido por pesquisadores da área, para reverter esse mecanismo. Este processo de reversão permite a substituição da memória muscular da lesão por alguma outra memória que não envolva nenhum tipo de trauma.

Como efeito, a dor e os sintomas psicológicos são reduzidos, ou até mesmo desaparecem, permitindo uma recuperação mais fácil e mais rápida da lesão. Segundo os pesquisadores, para que o tratamento seja ainda mais eficaz, é necessário fazer com que o atleta identifique o que saiu errado como uma maneira de aprendizado, e não de derrota.

Esse mecanismo faz com que haja uma mudança de comportamento diante das sensações causadas pelas tarefas já executadas, fazendo-os enxergá-las como ferramentas valiosas, e não indesejáveis.

Conclusão:

Observa-se que, a memória muscular é uma importantíssima aliada na retomada da prática de qualquer atividade física, principalmente no que diz respeito ao treinamento com pesos, onde o corpo responde de forma satisfatória e com menor tempo possível ao praticante. Tenha em mente que, para um treinamento seguro e eficiente, é necessário começar com cargas leves a moderadas, e aumentá-las gradativamente. Para que dessa forma, o corpo reconheça e responda ao estímulo dado sem o risco de lesões.

Referências:

Krakauer, John W., e Reza Shadmehr. ” A consolidação da memória motora. ” Tendências em neurociências 29.1 (2006): 58-64.

Xu, Tonghui, et ai. ” Rápida formação e estabilização seletiva de sinapses para suportar memórias motoras. ” Natureza 462.7275 (2009): 915-919.

Stefan, Katja, et al. ” A formação de uma memória motora por observação ação. ” The Journal of Neuroscience 25,41 (2005): 9.339-9.346.

JC Bruusgaard, IB Johansen, IM Egner, ZA Rana, K Gundersen.  Mionúcleos adquirida pelo exercício de sobrecarga Precede hipertrofia e não são perdidos no destreinamento . Proceedings da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América 107 (34), 15.111-15.116.

Tradução e Adaptação de: Memoria Muscular . Disponível em:
<http://www.masmusculo.com.es/wiki/memoria-muscular/> ; Acessado em 20 de agosto de 2016.

Por Personal Trainer Raphaela De Paula Pereira

Raphaela Pereira

Formada em Educação Física e Pós Graduada em Fisiologia do Exercício e Prescrição do Exercício.
Atua nos campos de treinamento resistido, treinamento funcional, reeducação postural e reabilitação física através de exercícios funcionais e/ou resistidos, e técnicas específicas.

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